quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Ouça-me bem amor, preste atenção, o mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos. Vai reduzir as ilusões a pó.
Ouça-me bem amor, preste atenção, o mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos. Vai reduzir as ilusões a pó.

As ilusões devem ser perdidas

Estou escalando uma montanha branca e de extrema altitude. O ar já está rarefeito, mas o meu objetivo já está a vista, o cume. Eu sei que posso morrer se ousar alcança-lo de vez, mas eu olho para trás e não vejo apenas neve e nuvens geladas, vejo desolação. Eu vou conseguir, ou morrerei tentando. Isso parece tolo para você? Você não morreria tentando?

Parece que desaprendi a escrever, a pensar, a sentir. O presente parece longe. Tenho que trazê-lo de volta, todos os dias. Mas, ultimamente, apenas o pensar sobre isso não tem sido muito eficaz, creio que é preciso resgatar algo, algo precioso, por meio da ação.

A relação essencial entre dois indivíduos é a sinceridade ao compartilhar o seu interior. Acima de tudo, é necessario gostar de tudo em si próprio, vencendo preconceitos, aceitando o sofrimento. Do contrário, aos olhos do outro, você seria alguém desprovido de autenticidade, seria alguém estéril. O caminho contrário já está provado que não parece ser muito saudável. As ilusões devem ser perdidas.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Por quê eu sinto que estou desaparecendo?

domingo, 6 de dezembro de 2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Obtuário

Hoje, dia 32 de dezembro de 2088:

Morre o jornalista João Miguel Cobelo Foti.
Morre o ator João Miguel Cobelo Foti.
Morre o professor João Miguel Cobelo Foti.
Morre o poeta João Miguel Cobelo Foti.
Morre o escritor João Miguel Cobelo Foti.
Morre o músico João Miguel Cobelo Foti.
Morre o artista plástico João Miguel Cobelo Foti.
Morre o dramaturgo João Miguel Cobelo Foti.
Morre o teatrólogo João Miguel Cobelo Foti.
Morre o compositor João Miguel Cobelo Foti.
Morre o psicólogo João Miguel Cobelo Foti.
Morre o pedagogo João Miguel Cobelo Foti.
Morre o psicanalista João Miguel Cobelo Foti.
Morre o linguista João Miguel Cobelo Foti.
Morre o historiador João Miguel Cobelo Foti.
Morre o filósofo João Miguel Cobelo Foti.
Morre o diretor João Miguel Cobelo Foti.
Morre o cineasta João Miguel Cobelo Foti.
Morre o médico João Miguel Cobelo Foti.
Morre o fotógrafo João Miguel Cobelo Foti.
Morre o antropólogo João Miguel Cobelo Foti.
Morre o florista João Miguel Cobelo Foti.
Morre o pintor João Miguel Cobelo Foti.
Morre o romancista João Miguel Cobelo Foti.
Morre o vendedor de livros João Miguel Cobelo Foti.
Morre o cozinheiro João Miguel Cobelo Foti.
Morre o palhaço João Miguel Cobelo Foti.
Morre o maestro João Miguel Cobelo Foti.
Alguns dias são melhores que outros.
É isso ai.
"Cuidado com a cabeça!"
Não tome nota.
Eu sinto que sou transitivo,
Às vezes eu simplesmente
Não quero falar sobre nossa
Psicologia.
Fico farto.
Frequentemente penso
Como seria bom
Se todos pudessem
Ficar em silêncio.
Há vezes que desejo apenas
O teu silêncio, olhos, boca.
Aqui dentro não existe perfeição,
Só um poço com tantas im...
Nem psicologia, nem sentimentos.
Equilíbrio, mas,
Basta!
Venha comigo, é tudo que peço,
E vamos construir uma casa!
Vamos sair daqui!
Mergulhar com peixes elétricos.
Vamos de barco para uma ilha na costa?
Isso eu posso fazer.
Mas este mundo, este mundo todo,
A inércia e a mesmice, os diálogos,
Eu não posso fazer,
Porque não o quero
(Não me deixe aqui)
Vamos nos enfeitar de objetos.
Dormir. Dormir. Para sonhar.
Não tome nota.
Equilíbrio
E muita saudade.
Vida.
Não há o que dizer.

No quarto

... Numa atmosfera repentina e assustadoramente real, eu vi seu rosto colado com outro espelho. Uma experiência interessante para quem acabou simplesmente de ser bombardeado por milhões de duvidas. Em sua máxima expressão de amor, a ansiedade tornou-se uma porta de cor tênue e sombra leve, uma flecha, e eu devo procurar o alvo. Onde estará a chave para abrir essa porta? Onde estará a direção da flecha? Não sei, mas o corpo treme, treme, como se toda a imensidão dos astros esnobes e as constelações infinitas desabassem sobre a cabeça do meu indivíduo tão pequeno. Lembro que tudo é uma grande impressão, não existe. Um pequeno espaço de eternidade não é melhor nem pior que um grande espaço de eternidade. Vaidade. Largue mão, menino. Deixe o sonho de lado, começe a agir...

... Como saberei que meu sangue e carne, a minha carne que é finita, poderá nascer e crescer em outra pessoa, se não puder arriscar minha própria vida em nome dela? Como terei filhos se não aceitar que um dia eles irão morrer como eu... não é certo para mim pensar que uma vida dói tanto a ponto de eu querer impedir ele de viver, por um medo próprio de mim mesmo. Eu devo permitir a sua morte. A morte de todos os meus filhos. Não me preocupo com a superpopulação, tampouco com o fim do mundo. Apenas quero que nasça, de dentro para fora de mim, a vida e morte de outra pessoa, para poder viver e morrer também. Não julgo prejudicial a dor de meus filhotes. Que sofram tanto quanto eu e todo mundo...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Desordem

As ideias estão confusas. Feels like hell inside. Mas isso não é você, é o que você acha que é você. Ódio. Isso é normal, você está pairando numa órbita, aceite. Impossível compreender, impossível aceitar. Não tão impossível. O ódio é parte de mim, eu apenas estou evitando-o, isso é errado. Bem, não errado, mas também não é certo. Uma vez eu subi numa montanha maldita, e lá conversei com um velho. Ele me disse, "não diga". Eu não disse. Vê? Ele me deu um tapa na cara, tive tanto ódio que queria matar todas as pessoas que eu mais amo, no entuito de me destruir. Quis morrer. Mas agora eu percebo algo no ar.

Não são eles, não é nada, apenas tudo o que você é. Um hipócrita. Um pássaro que deseja ter asas maiores, e por não ter quer decepar as asas de todos do bando. Um vilão. Maldoso e apodrecido. Meu hálito é de sangue, com um aroma inconfudível de guerra. Uma guerra santa. Eu não sou feito de amor, não o tenho! Sofro e, neste exato momento, me assemelho mais do que nunca à uma hiena oportunista. Estou caíndo pelas paredes do castelo. Longe de casa, longe de tudo, tudo que possa trazer a vida à tona. Mas o que me prende nesta terra... o que me mistura à cal como um braço que derrete é essa busca por dizer tudo que sempre achei ser indizível. Conhecer o mundo e me foder à beça, como um cão sarnento, coberto de lama e vermes. Sinto que minha raiva é completamente por mim! Embora o extremo oposto de uma carga tão negativa, o meu amor, me diz: não se odeie tanto, odeie os outros. Foda-se. O nojo é a expressão da desordem. DESORDEM! ANARQUIA MENTAL! Explosivos depositados em tua orelha imunda e irreconhecível. Essa vala que me aparece no meio do caminho é o meu lugar, meu criatório de porcos, eu porco! Porco. Estúpido. Mesquinho. HIPÓCRITA. Surdo. Mudo. Diabo. Lixo.

"Desapega disso, garoto..."
"... Desapegou?"
"Sim, velho, agora desapeguei."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ébrio

Até agora pouco, eu incomodava meus vizinhos. Mas não pude me conter. Estava ébrio como um vazio. Apaguei a luz, e no canto de meu quarto, às duas da madrugada, me pus a cantar minhas mais preciosas canções da vida. Pois é simplesmente nessa hora que eu precisava. Estava feliz, mas sabia que ao mesmo tanto estava triste. Pedi perdão ao vizinho incomodado que cutucava meu teto com sua varinha de condão. Eu não podia parar, não ate meu cigarro terminar. A gaita e o violão, no vão das paredes de meu quarto, traduziam todos os meus sonhos, minhas magoas, minhas mãos, meu sono.

Uma poesia breve se soltou na amplidão do universo. Eu pouco me preocupava se não tinha registrado num papel todos aqueles versos de amor. Mais vale para mim que eles sejam soltos no vácuo, e desconhecidos. Quem sabe um dia eu não me encontrarei com eles, num cometa incrivelmente belo e passageiro?

Quem sabe um dia, quando eu me for, estas palavras puras não sejam encontradas no espaço por minha vida, tão passageira quanto o próprio cometa? Estou ébrio e apaixonado, o que posso fazer? Palavras. Olhares no silêncio. Música. Prazer. Muito prazer em te conhecer.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Roteiro - Pierrôt e Colombina (Sambolero)

(Colocar música trilha sonora: Sambolero - Luis Bonfá)

Um pierrôt andava triste pelas calçadas. Não havia ninguém que ele pudesse amar. Ele queria impressionar alguém, queria risos. Mas na verdade existia sim alguém especial como ele, sem saber quem, ele sabia.

O sol da tarde projetava sombras doces sobre os pedestres. Então ele a vê, sentada num banquinho, aparentemente entristecida. Logo, como ele pode ver, ela estava apenas silenciosa. Uma linda colombina! Ele logo se apaixonou por sua formosura.

Ele estufa o peito de coragem! Sua expressão torna-se engraçada. Ele se apresenta e começa a se exibir para ela com alguns truques. Porém ela nem o percebe, continua silenciosa e indecisa.

Ele pensa, pensa e decide abordá-la, dessa vez com charme e sinceridade. Ele se ajoelha na frente dela, e com muita habilidade retira de dentro do peito o próprio coração, que pulsa freneticamente, e oferece-o a Colombina. Ela o rejeita. Levanta-se e sai visivelmente chocada com aquela demonstração. Ele fica sentado no banco, sozinho. Então retira das costas um trompete e começa a tocar um bolero.

Alguns momentos depois, passa em sua frente a mesma colombina por quem seu coração fora rejeitado. Coração que ainda se encontrava apertado em sua mão esquerda. Dessa vez, ela está acompanhada por um outro pierrôt, mais forte, alto e aparentemente vaidoso. Ela está fascinada. O nosso pierrôt decide segui-los.

Numa ponte, ele vê a colombina e o pierrôt arrogante trocando beijinhos. Ele espia arrasado por detrás de uma árvore! Então ele vê a colombina fazer o mesmo truque que aprendera com ele. Ela retira seu próprio coração e põe nas mãos do pierrot convencido.

Neste instante, duas lindas jovens devidamente vestidas para o baile da noite atravessaram a ponte. Não fizeram nem questão de esconder os sorrisinhos para o pierrôt metido, que ficou completamente alucinado. Sem notar o que estava segurando na mão, ele atira o coração da linda colombina no chão. Pede licença para ela sair de seu caminho e sai correndo atrás das duas jovens.

Aquilo foi demais para ela. O rosto delicado de flor manchou-se de lágrimas incessantes. Vendo seu coração no chão, espatifado como um objeto irregular sobre uma arca, ela começa a achar bem atraente a ideia de se atirar da ponte, mas logo desiste. Vira-se novamente para o coração murcho no chão e se abaixa lentamente para pegá-lo. Pouco antes de sua mão poder tocá-lo, outra mão surgiu e o capturou.

O pierrôt apaixonado apenas sorriu e estendeu a mão direita com o coração da colombina. Ela estica a sua mão, mas o que ela busca é o braço esquerdo do palhaço. Ela pega o coração dele com as duas mãos. Seu corpo já está perto demais do dele e ele suspira com aquele perfume rosa.

Os dois colocam de volta no próprio peito o coração do outro, e saem dançando e se abraçando pela ponte. Ele tira o velho trompete e toca para ela uma canção de amor, enquanto ela dança girando graciosamente. E assim atravessam a ponte.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Após o Concerto de Violoncelos

Desta vez, após sair de um concerto de violoncelos na casa do amigo Modigliani, o pierrôt sentiu que seria válido atravessar o largo, em direção à bodega mais próxima, para tomar mais alguns tragos de rum. Pouco antes, enquanto os quatro amigos Modi, Utrillo, Rivera e Picasso executavam Vivaldi, ele interrompeu a música com um grito agudo, dançando embriagado sobre uma das bancadas de madeira onde Modigliani depositava tintas. Por estar com o coração leve e musical - ele considerava um privilégio presenciar aquele momento entre amigos - numa atmosfera mística e carregada de emoção, o pierrôt começou a cantarolar uma canção vinda de outras beiradas do mundo, lá das terras do Brasil, e todos silenciaram:

“Sei que é doloroso um palhaço
Se afastar do palco por alguém...
Volta, a platéia te reclama!
Sei que choras, palhaço,
por alguém que não te ama...

Enxugas as lágrimas
e me dê um abraço
e não te esqueças
que és um palhaço!
Faça a platéia gargalhar...
um palhaço não deve chorar...”


Todos aplaudiram! Que momento de alegria! O palhaço sentiu que nada mais devia ser feito senão buscar uma nova garrafa de rum para celebrar, e todos se regozijaram! Ele saiu para a rua ébrio como nunca estivera na vida. Porém, dessa vez, havia um cheiro acre de lama e pedra molhada que transformou sua alegria em melancolia, uma melancolia intensa e impenetrável, como já era de se esperar. A perambular pelos becos vazios de uma cidade adormecida, ele pôs-se a pensar na sua colombina mais bela de todas. De certa forma, ele estava satisfeito. Na noite anterior, havia deixado em mãos alguns versos apaixonados, os quais ela retribuiu com um sorriso tímido, mas que o deixou suavemente encantado pelo mistério daquela figura aromática e linda.

Embriagado de amor, passando pela mesma ponte onde deram-se as mãos pela primeira vez, o palhaço subiu no fino parapeito e caminhou equilibrando-se com os braços. Embaixo, um rio escorria suas águas negras como a noite e desconhecidamente profundas. Na completa euforia, ele não se importava tanto com o risco. Por isso, ele escorregou.

Já a uns 3 metros de profundidade, ele sentiu no silencio das águas a mesma melodia executada por seus amigos, num frágil timbre de violoncelo. Ele abriu os olhos, mas nada podia ser visto naquela escuridão. Tornou-se fácil não respirar, o pulmão ainda possuía um pouco de ar. Ele começou a sentir o êxtase. Era uma sensação curiosa para ele, que gostava de colecionar sensações variadas e extraordinárias para apenas um corpo humano. Sentia ao mesmo tempo uma espécie de paz, sono, calor. Toda a embriaguez se fora. O oxigênio em seus pulmões já havia sido totalmente absorvido. O gás carbônico começou a ser expelido, formando borbulhas surdas no fundo do rio.

Afinal, aqui não está tão ruim assim, o palhaço pensou. Seu corpo já havia atingido os 7 metros de profundidade. Que emoção! Com certeza, este foi o melhor dia de sua vida. Obtivera o sorriso da colombina mais bela e distante de todas. Bebera o absinto sagrado juntos aos maiores pintores e músicos que já tivera a honra de conhecer. Cantara para eles sua canção e depois dançara sobre o próprio reflexo nas águas negras do rio, mergulhando assim para a morte como quem se deixa afundar num poço de paixão. A maquiagem já havia desbotado quando os olhos do pierrôt fecharam-se ao som das cordas. Felizmente, ele não pode ver seu rosto limpo.

domingo, 29 de novembro de 2009

Após meu encontro com o Almirante, foi traçado na empunhadura de meu sabre sonoro, algumas palavras a plenos pulmões: “I’m alive, vivo, muito vivo, vivo, vivo, sinta o som do cinema elétrico batendo em minha pança, pança, pança”. Poderei eu alcançar the age of (g)old? "EU SEI QUE UM DIA EU DEVO MORRER. EU ESTOU VIVO. SIM. EU SEI QUE UM DIA EU DEVO MORRER! EU ESTOU VIVO!" E a pele de todas as mães, TODAS AS MÃES DO MUNDO, inclusive a elefanta, a forminha Rainha, a LUA, a minha, todas me fazem chorar. Desse filme eu conheço todas as estrelas: Nove de dez, para ser preciso. Todas as tolices sentimentais que comentem os cantores chorões à meia-noite, num bar embriagado, embriagado, tentando ser algo menor. Vamos à luta, pois que tenho medo, mas às vezes não o tenho tanto assim.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Traga de volta, vento,
Traga de volta a vida.
Deixa o sangue ser vermelho,
E olhos voltarem para os meus.
Vem voando, mas venha rápido.
Eu não sei das coisas, não sei!
Apenas sei de nada,
Porque nada é tudo que sou.
Então porque esperar?
Traz de volta nosso umbigo
Que é para eu nunca mais chorar.
Vamos fazer um cinema,
Vamo construir um teatro da vida e morte,
Pois é o único lugar onde eu quero estar.

Flor de Maracujá

... E então, de repente, alegremente, o sol sai. Seca a chuva. As cores se anunciam. Nuances vivas se projetam em todos os objetos. O calor começa a mudar algo. Ouço o barulho das folhas de árvore se debatendo. Aquilo que desatina e dói no corpo, surpreendentemente se abranda, relaxa. Apesar de qualquer tristeza compreendida pela poesia, me tranquiliza, de certa forma imediata, saber que o pior ainda está por vir...

Pela rua...

De que me importa se a vida siga toda manhã...? De manhã é que choro minhas lágrimas a todas as pessoas que andam sem rosto, pois é a hora que ninguém me vê... É que esse mundo tem uma dor... Que não sei explicar, mas existe. Em algum beco ou passarela dentro deste meu corpo de Baco. É o espinho. A ferida. Algo inacabado, incompleto. Um susto que se leva por ter se esquecido do peito.

Espero que ainda exista gente, cá na terra, que não tenha esquecido de seu próprio peito, como eu frequentemente tento não fazer, mas faço. Tempo. Tento lutar contra ele. Amargo tempo. O que seria do precioso "eu" sem ele? Este ego, eu nego.

Então é comum, quando chove, as orelhas se arrebentarem. Os dentes se triturarem numa agonia eterna. D-O-R. Deveria ter feito isto. Deveria ter causado espanto no tempo! "Ei, Cacique, veja só como eu ainda estou aqui"! Mas é nada, quase água.

Explosão no céu, é uma estrela sacrificada mais cedo, talvez. Eu nada posso fazer. Que adiantaria um duelo? O gigante contra o anão. Um sol contra um verme. Às vezes, tenho vontade de não ser qualquer coisa além de pura terra. Pura estrela. Sem tempo, nem sangue.

O tempo me fere como uma lança em brasa. Os minutos e segundos onde só há o desamor, são o tempo. Então... traz de volta, vida, a vida dos olhos que não são meus. Volta nesse tempo emendado com todo o vento do mundo. Tráz de volta, tempo, o tempo que se perdeu, passou, pois assim eu não passarei mais. Sem fugir, apenas deixarei de existir e estarei amando tudo demais para sequer lembrar desse tempo que me judia.

Estarei amando à mando de algo a mais. Bom dia, sexta-feira cinza e fria. As ruas estão vazias. Eu nesta repartição imagino você confortávelmente adormecida. Pela janela vejo a rua. É verdade... Estão tristes e vazias.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Há o amor vital, a força energética, mística, contemplativa e universal. Díficil de ser tratado cientificamente. Trata-se do amor altruísta, o qual não pede nada para si. É o amor de buda.

Há o amor por coisas, o amor por pessoas e o amor por entidades. Trata-se do amor egocêntrico, onde 2 egos tornam-se 1, assim como 1 torna-se 2. É o amor de bunda.

Ambos são parte de uma coisa só, assim como tudo é que pensado. Como uma forma de organização, caminho. Nunca tomados por verdades, mas a necessidade de quebrar preconceitos e desprender-se da idealização. Ao contrário da paixão, que é ingênua, mas completamente necessária para manter o balanço, como um mergulho que simplesmente decidimos mergulhar e ponto final.

Há de ter equilíbrio. Nesse todo, todas as formas de amor podem ser vitalizantes, mas também podem buscar a desvitalização, utilizando-se de formas externas, buscando atingir o interno. É o principio dos opostos, o amor e a morte. Nem um, nem outro: equilíbrio.


E a depressão, enfim? É o próprio amor... quando bate em retirada...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Frente ao Espelho

Numa madrugada meu corpo atua como se quisesse te falar tantas coisas. Na frente do espelho, eu descubro uma vastidão de possibilidades de te comunicar o que penso sobre tua eterna fuga. Se eu pudesse, mostraria que as coisas não necessariamente devam ser tão ruins, ou tentaria alcançar alguma espécie de solução para o misterioso medo que nós, pensadores que sofremos, devemos conviver. Estou certo que para uma boa atuação é preciso adornar o corpo com símbolos místicos pessoais, qualquer espécie de fantasia ou talismã, e é muito interessante quando o maior adorno é o nosso próprio corpo nu.

Fiquei rindo na frente do espelho de coisas tão absolutamente naturais em mim. Minha vergonha, vaidade, estupidez... pudor, tudo foi posto frente à frente e dialogado. Depois de rir tanto de meus pêlos, meus ossos, meu sexo, descubro que nada realmente é engraçado, a não ser a imensa estupidez para com o modo que a humanidade vem se relacionando com o próprio corpo.

Balanço meu sexo de um lado para o outro e ele gira como um catavento. Aquilo me provoca uma sensação de rídiculo que eu resolvo sentir pra valer. Então percebo que não há nada para rir. É apenas eu e você. Deveríamos rir das roupas, isso sim. Panos tingidos com formas abstratas apenas para esconder aquilo que temos de mais precioso e frágil que é nosso corpo, macacos nus.

De certa forma, meu desejo imenso é ver-te nua. Quero suspirar perto de sua pele para tentar entender o mecanismo do tesão. A nossa percepção corporal ardendo de um para o outro. Ao mesmo tempo, sentir o aroma de cada canto do teu corpo representa uma verdadeira aventura num vasto horizonte de sensações inegáveis e tão presentes, que é impossível não se entregar. Não me importa, portanto, se não quiseres abrir teu coração. Deixo-te remoendo tua tristeza sozinha, pois para mim o melhor a se fazer é não fugir mais. És uma cientista maluca da mente, assim como eu!

Se a filosofia de um psicológo trabalha sob um prévio condicionamento da consciência sob os efeitos do conflito saúde-mente, no que se transforma o pensamento sob a pressão de uma doença? É essa a questão que realmente interessa ao psicologo, justamente porque é possível o conhecimento na prática, o experimento. A fuga do corpo é a filosofia do medo. Funciona durante o tempo que nos é dado para sofrer, isolados num laboratório particular chamado nós mesmos. O melhor a se fazer é atuar frente ao espelho.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Vento de Villa


Não importa. A cada manhã que desperto meus sentidos devem estar sempre prontos para mais um dia de exposição e renovação. Foi-se a época em que eu deixava de viver por medo de morrer. Você já sentiu isso? Quantas noites revirando a cabeça no travesseiro, apertando os olhos contra o seu próprio interior, sentindo o grande medo, o supremo medo. Afinal, o que é não existir? Como saberei! E se não der tempo? Desespero.

Então eu me levanto, cansado de estremecer, cansado de procurar respostas, cansado do medo da incompreensão das coisas. Até perceber que tudo é uma grande e plácida incompreensão. Bem, não podemos ficar sofrendo na cama sozinhos a noite inteira. A gente se cansa uma hora. O que eu faço? Levanto-me e coloco no meu velho som aquela fita velha de Villa-Lobos.

Você conhece Villa-Lobos? Dizem que seu amor pela vida era tão enorme que ele sabia conduzir os rumos dos ventos num campo aberto, onde as árvores permaneciam estáticas. Pinheiros, eucaliptos, araucárias, imóveis. Villa-Lobos então dizia às crianças: “Observem como o vento gosta de ser chamado”. Então ele, não mais de repente, começava a assobiar. Aquele assobio fazia um efeito no mundo onde todas as coisas começavam a mover-se! Instantaneamente, como vindo de um profundo sentimento de avesso causado por seu próprio medo, ventos! Uma ventania sem precedentes se apossava dos ramos das árvores, e elas começavam a dançar e balançar de um lado para o outro!

As crianças arregalavam os olhos e gritavam de contentamento! Finalmente poderiam empinar suas pipas! Todas elas saiam correndo como animais satisfeitos após uma refeição, enquanto Villa apenas observava todo aquele mundo, como era lindo, como a vida era linda, com um discreto sorriso no rosto, sombreado por seu tradicional chapéu panamá.

Nas noites de confusão e medo da morte, ouvir sua música era a grande saída para o meu pavor total. Acendia em mim a esperança que, talvez, viver não seja tão ruim assim. Ao meu lado eu via dois homens cumprimentando-se e, no mesmo instante, chamas alaranjadas emergiam possuindo seus corpos. Então, no auge da passagem mais bela dos violinos, onde as tropas e os fagotes escorriam o mel de uma melodia tão carregada de tristeza e doçura, eu via, ao longe eu via, aquele rostinho lindo, olhando para mim de baixo. Eu podia, enfim, ver suas mãozinhas frágeis segurando a barra de minha calça. Era o rostinho de meu filho, que eu ainda nem conhecia.

Logo eu percebia que nada adiantava ficar me debatendo às 4 horas da madrugada em minha cama, com medo da morte por não saber viver, não! Daquele momento em diante eu deveria aprender a viver. E para viver, e também para o meu filho viver, eu sabia que deveria procurar a vida.

Eu soube qual seria então a minha busca, a única busca que é válida nesse mundo. A eterna busca da beleza das coisas, de Deus, do amor enfim. Nestas noites completamente solitárias, enclausuradas no meu eterno pavor de sobreviver sem ter amado verdadeiramente, eu descansava meus músculos num sadio relaxamento interior.

Paciência. Este amor há de existir. Paciência. Seu filho reside nas páginas velhas de um livro de poesia, ou nas mãos cuidadosas que um dia hão de afagar minha nuca que transpira meu mais puro desejo.

A minha melancolia era tão sóbria que eu fui até a janela, onde residem do lado de fora os postes de luz incandescentes, o meu limoeiro tão cheiroso pelas manhãs, e as flores da roseira, todos estáticos, e no mais complexo e infinito silêncio da madrugada eu assobiava uma linha melódica semelhante ao de Villa, porém minha, minha melodia saída de dentro de mim.

Ele estava certo. O vento veio e estremeceu aquele mundo adormecido e escuro, onde só eu permanecia acordado. A vida poderia mesmo, daquela forma solitária e vasta, ser bela.

O Sonho de Marie

(Ilustração por João Miguel)

Sete horas da manhã. Marie levantou-se da cama, despiu sua pele de seda, amassada com a noite anterior, inquieta e opaca. Fez sua crônica matinal ainda nua. Sentia-se embriagada, entorpecida, junto a uma sensação de ter dormido não mais que alguns minutos. Foi quando começaram os delírios.

Caminhou até a porta do quarto. Sentiu o odor acre do suor seco impregnado em sua pele. Uma última espiada no quarto e reparou no homem que ainda dormia em sua cama. Adentrou na sala, receosa e tépida, como uma aventureira que entra numa caverna escura e virgem. De repente, uma escada prateada conduz Marie ao andar seguinte, onde há uma porta entreaberta. Nua, ela desliza seus passos sobre os degraus. Hesita em escancarar a porta, então somente bisbilhota pela fresta iluminada o que se encontrava do outro lado.

Viu um homem e uma mulher trocando intensas carícias. O homem está arranhando a pele jovem e rosada, como quem celebra sua presa, seu prêmio, e certifica-se que ninguém mais a possuirá senão ele. A mulher, mesmo que submetida a dolorosas gasturas e arrepios, corre com a ponta dos dedos os ombros e costas, acariciando-o terna e amavelmente. Marie ao ver aquela cena sentiu vibrar seu ventre. Algo borbulhava no interior de sua barriga. Foi quando teve a certeza de que estava grávida.

Então todo o sólido chão desfez-se. Sentiu uma levitação que a empurrou contra a porta, caindo num precipício impalpável que se aprofundava num chão de luz clara e ofuscante. Só quando o brilho prateado diminuiu ela pôde ver a cena mais estrondosa de sua vida: duas pessoas em volta de uma cama antiga, contemplando uma mulher dando a luz a uma criatura que, mesmo sem nunca tê-la visto, Marie sabia ser seu filho. Estranhamente essas duas pessoas apenas olhavam e não ofereciam nenhuma ajuda, enquanto a mulher, berrando de agonia, paria seu fruto já maduro. Marie começou a chorar, a rezar e chorar mais, desejando que todo aquele parto se abreviasse para que ela pudesse protejer seu filho, mas sua cabeça e membros pesavam uma tonelada e ela não conseguia se mover.

Foi quando a mulher soltou seu último suspiro e forçou a criança para fora de seu corpo, expelindo-a numa bacia posta entre suas pernas. Nesse momento um dos dois que estavam observando adianta-se e com uma faca, de aspecto bruto e enferrujado, corta o cordão umbilical em dois pontos distintos, um perto do umbigo da criança e outro já na saída do corpo da mulher. O outro expectador, antes imóvel, também se adianta e toma o recém-nascido em seus braços. Embrulha-o num lenço negro de seda, enquanto o outro estende o fragmento de cordão umbilical e entrega-o a mãe, que o recebe apavorada. Os dois viram as costas e desaparecem na escuridão.

A mulher na cama permaneceu congelada em sua expressão de horror. Marie gritou. Gritou desesperadamente. Gritou com o cerne da intenção desesperada e entristecida. Sangue jorrou em suas pernas. O mundo começou a silenciar. Marie agora gritava em silêncio, alguém excluiu o som de sua voz do mundo. Piscou os olhos para derramar as lágrimas acumuladas e baque! Estava deitada em sua cama novamente! O relógio de cabeceira marcava exatamente seis horas e cinqüenta e nove minutos. Ela retomou a consciência. Deu um gemido baixo a fim de atestar se sua voz ainda existia. Ao seu lado ainda dormia o mesmo homem que enxergava em seu sonho, por entre a fresta da porta entreaberta. Apaziguou-se. Mais um olhar ao homem e sorriu discretamente. Sentiu o ventre vibrar.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Noite de Chuva

Meu corpo arde. É noite de chuva. Ele arde. Há pássaros pousados nos fios de alta tensão. Dentro de mim, todos os romances já escritos. Onde estará o meu romance?
Devo-te amor, não nego.
Quero-te, amor. Não nego.
Não toque assim este coração tão frágil.
Não seja o aço da torre fria.
Prefiro a dor do que ter espaços.
Neste vazio não posso mais existir.
Eu vi a mosca voar vã e solta
E tudo me diz que devo ir junto.
Estou sofrendo, meu amor.
Sofro porque envelheço a cada dia,
E a cada dia renasço em ti.
Tanta dor por apenas um beijo?
Tanto frio apenas pelo infinito?
Eu não tenho infinito.
Estou chorando.
Estou apenas chorando no vazio.

João de Barro

Por quanto tempo me escondi do mundo? Envolvido num sopro de vento, por quanto tempo deixei de ser sopro para ser vento? Agora que percebi como minha constituição se assemelha a terra, ao pó, argila, não posso deixar de querer derramar água em mim para unificar-me. É o vento que seca o barro molhado. É no vento que eu voo longe, busco o pólen e o canto de outro passarinho.

Talvez assim eu possa um dia me tornar um lindo vaso chinês, ou um muro rígido como meus ossos. Há dias que minha consistência é como carne crua de peixe, sem fibras e insípida. Noutros, tudo o que sei que sou, e o que não sei também, adquire formato fino, transparente e muito atraente.

Posso mastigar meus pensamentos sem me importar com meu corpo. Não sem me perguntar: por quanto tempo me escondi do mundo, engolindo esses pensamentos como pedras improváveis de se triturar? Como pode uma mente que se liquefaz e derrama-se junto ao sangue, se expele com a urina, aparentemente estar escondida?

Neste ponto, as minhas janelas produziam uma penumbra imensa dentro de mim. Sobre as minhas duas esferas negras, e muito eficientes ao enxergar o mundo, as cortinas do pensamento permaneciam intactas e frias. O sol, enfim, não podia alcançar a lã do tapete, tampouco meus dedos que descansavam sobre uma cama vazia. Vinte dedos, sozinhos.

Então, subitamente, algo acontece que me torna menos eu, menos indivíduo. Torno-me amplo como o céu da Turquia! Branco como o gelo da Antártida! Isso só me remete a uma explicação: meu ser, mais do que nunca, necessita construir a sua própria casa, não mais basta ser único porém tão dividido. Quer amor.

Ao pensar, como o vento, meu ser torna-se um grão de terra seco. Ao sentir, como a água que é minha amada, torna-se barro.
Problemas! Ó, mundo! Como tu tens problemas! Se falha a luz, tudo dá errado. A hidrelétrica de Itaipu fica inativa por algumas horas, e metade do país sem energia elétrica. Bendita eletricidade, esse é o caos que todos merecem. As crianças recém nascidas morrem, os sorvetes derretem...

Rosa


De você, eu leio palavras que são minhas todos os dias desde o dia que encontrei esta rosa negra e murcha, moribunda na calçada, no entanto, mais perfumada do que nunca.

Acontece que nunca antes tive tanta vontade de gritar: "PERDÃO". Uma palavra encantadora. Sólida. Palavra que me torna maior, um merecedor. Será que vale a pena derramar lágrimas sobre a terra ao tentar replantar a rosa?

Rosa. Faça-me digno de todo o seu perfume negro e tristonho. Faça-me um canto inaudível e nunca sonhado por duas flores como nós. Rosa. Deite-se no meu peito e espere, apenas espere o amanhecer. Venha, minha casa tem espaço para nós dois, como um oceano azul. Ouça aqui dentro do meu peito este coração que não é mais meu. Ouça como ele clama, rasga-se por dentro, detona-se como uma bomba letal neste corpinho tão frágil e sensitivo que possuo, às vezes contra minha vontade. Tudo por causa da sua vida, Rosa.

Chame meu nome de Antônio, Pedro, Porta, Palco, tanto faz... apenas converse comigo sobre o enorme céu que sonhei na noite anterior. Ainda posso farejar as estrelas que eu vi, acordado e completamente só.

O que temos de ter, além de espinhos? Assim como todas as noites, antes de nos encontrarmos nesta terra de ninguém, posso ouvir os lamentos do meu limoeiro, tão solitário quanto o teu quarto num domingo repleto de saudades.

Vem mais perto, vou pedir perdão às raízes de teu ouvido. Vou te declamar o poema do corpo e da alma para que você possa reconhecer minha simplicidade, quero ser merecedor, Rosa.

Perdão, mas não quero que eu seja o único. Não, não deves cegar teu pranto, nem teu contentamento por apenas um rosto feio, desconhecido e triste como o meu. Mas se por um instante, ah, se por apenas um instante, decidir que sou mais do que posso ser, renascerei negro como tuas pétalas rachadas, ensangüentadas.

Nascendo uma outra vez como flor, juro, ao teu lado quero ser plantado. Quero me alimentar do teu alimento. Terra úmida e nutritiva não há melhor como a tua. E então giraremos em torno da luz do sol, sempre que o sol sair. E a noite, vá embora encontrar tua vida.

Serás tão livre que nem notará se um dia eu morrer pisoteado por alguma criança ou transeunte atormentado de paixão. Rosa. Deixe-me brotar aqui, perto de ti, só mais uma vez. O que mais eu poderia desejar?

domingo, 22 de novembro de 2009

Cordas e Sopro



minha música é uma gaveta funda
guarda o mundo todo num acorde.
minha música é simples e surda
causa-me espanto, derrama-se muda.
minha música é uma dialogo eterno
entre minha carne e a tua carne.
minha música sossega meus olhos
entrega-se à vida como uma grávida.
minha música um dia há de silenciar
queria toca-la todos os dias para você.
minha música é o que sobrou de ti
e nunca há de ser nada além de ti.
minha música é pouco mais que um choro
e sempre há de ser mais que uma lágrima.
minha música existe e nada mais importa.
minha música diz a mim "você está vivo".
é pouca, é quase nada, dela não espere nada,
espere tudo, espero sempre. Estou partindo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

paz e amor. boa noite, mundo.

Um outro dia


E o pierrôt saiu pelas ruas de pedra perguntando às suas lágrimas por que o tempo havia sempre de passar tão rápido... Por que dói tanto perder a graça? Sem a maquiagem o pierrot não tinha beleza. Num gole gelado ele finalizou a garrafa de vinho tinto, tanto que sua pança ja havia estrapolado. Assobiou uma canção francesa da época de sua tatararavó, que implantava em sua alma um fogo branco, queimando tudo o que conhecera até ali.

Dói te esqueçer, pensou ele. Ainda podia sentir o perfume do corpo de sua colombina inocente. Porque será que te quero a cada palavra que digo? Ele pensou que soubesse, mas não, não sabia. Dói, de repente, não mais que de repente, viver. Ele sentou num banco de uma praça. Sono, saudade. Sou tão pouco que me perco de mim...

O palhaço quis deitar-se no banco, com o rosto pregado no assento de pano. Só queria poder chorar em paz. Folhas de oliveira se derramaram com o vento. Ele podia ver no céu um cometa partindo, mais uma vez, e rumo ao vazio, ao além.

Nem o vinho, nem as estrelas, nada podia consolar o meigo rapaz borrado no rosto. Olhos nos olhos. A madeira do tronco da oliveira era sua coluna despedaçada, e fazia muito frio. O choro de seu filho, lembrou-se em silêncio, será que nunca mais poderei ouvi-lo? Ele sentiu um medo que apagou as listras de sua camisa suja de terra e secou o creme de seus cabelos. Perto das flores daquele canteiro que ele retirou as luvas.

Foi-se embora a alegria, novamente, ele afundou o rosto nas mãos aquecidas. Na frente do espelho ele havia se pintado com a tristeza. Mas logo uma brisa leve tocou sua face trágica e sutilmente engraçada. Ele não resistiu e dormiu como um feto que ainda não se desligara, esperando o nascer do dia, um outro dia somente.

O que você vê?
Sabe aqueles dias que você chega em casa após tudo e tudo que você mais deseja é que a casa esteja completamente vazia? E como é bom quando ela está...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

samba em prelúdio

"Eu sem você não tenho porque
porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz
jardim sem luar
luar sem amor
amor sem se dar
E eu sem você
sou só desamor
um barco sem mar
um campo sem flor
Tristeza que vai
tristeza que vem
Sem você meu amor eu não sou
ninguém"...

V. de Moraes

samba triste

Samba triste a gente faz assim
Eu aqui você longe de mim, de mim...
Agora eu sei que toda vez que o amor existe
Há sempre um sambe triste, meu bem...
Samba que vem de você, amor...

Palhaço

"Sei que é doloroso um palhaço
Se afastar do palco por alguém
Volta que a platéia te reclama
Sei que choras palhaço
Por alguém que não te ama.

Enxuga os olhos e me dá um abraço
Não te esqueças que és um palhaço
Faz a platéia gargalhar
Um palhaço não deve chorar".

Baden

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Eu leio teu livro, sem aviso. Eu mordo esta ameixa, sinto seu aroma, deixo o suco escorrer em minha boca. O gosto... é o mesmo do livro.
Saudades... Será que ela me conhece?
Saudades... Será que ela já me sabe?
Saudades... Será que ela me existe?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Espanto a todos os malditos não nascidos,
Que virão depois de mim, perpetuar a maldição.
Que saibam, são eles todos merecidos
Do licor dos versos que provoca solidão.
... se não levares a sério meu sentir, nunca será minha linha, meu fio. Se não puder aceitar, não será meu pensar. Nunca serei eu, então. Mas podemos nos tornar uma planta, um só vegetal. Várias folhas, muitos frutos, apenas um caule... famintos sobre a mesma raiz, e sozinhos.
"Aonde está você...? Me telefona.
Me chama, me chama, me chama...

Nem sempre se vê lágrima no escuro...
Nem sempre se vê mágica no absurdo..."

L.
... se não me levares a sério meu sentir, nunca será minha linha, meu fio. Se não puder aceitar, não será meu pensar. Nunca serei eu, então. Mas podemos nos tornar uma planta, um só vegetal. Várias folhas, muitos frutos, apenas um caule... famintos sobre a mesma raiz, e sozinhos.

domingo, 15 de novembro de 2009

Estou completamente só.
Nunca nasci e morri tanto como agora.
Fui abortado do todo sem escolha.
Não há outro em mim,
Pois vivo demasiado entristecido por mim.
Se compartilho-me, partilho-me.
Se parto em tua direção, corres, foges...
E eu renasço, como um parto, acordo.
Não divido minha paixão com nenhuma violeta.
Todas foram pisoteadas
Por uma nave que não posso mais controlar...
Estou tão perdido que mal posso sonhar...
Tão infinito que mal posso me ver.
E você é tão veloz, tão algoz, que desaparece cedo.
Só queria o conforto de chorar por teu pranto.
Me dói na carne ser tão só... tão só...
Onde está meu reflexo, onde estão meus filhos...
Onde está a tranquilidade do caos de tua pele?
Estarei respirando quando notares que somos um?
Meu coração foi arrancado por meus dedos,
Para ser entregue a você como a prova do tempo.
Estou tão só, que nem sei mais como é estar só.
... vai meu coração, pede perdão, perdão por ter amado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

flores mortas

Tenho flores mortas
Na janela do quarto.
Ao som de saxofone
Eu aparento morrer.
Ainda sinto o cheiro
Do perfume de cravo.
Quando durmo vasto
Teus olhos posso ver.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

hahahahahahahahahaha
Problemas! Ó, mundo! Como tu tens problemas! Se falha a luz, tudo dá errado. Itaipu fica inativa por algumas horas, e metade do país sem energia elétrica. Bendita eletricidade, esse é o caos que todos merecem. As crianças recém nascidas morrem, os sorvetes derretem...

uma respiração

Budismo: Tudo é impermanente.

Milan Kundera: A Insustentável Leveza do Ser.

M. Merleau Ponty: Eu não tem exterior, assim como o outro não tem interior.

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Amor... A confirmação da experiência interior do outro, no seu próprio interior. O coosentimento.

João: Deixa ela, que ela existe.

O amor como relação afetiva. O amor como busca espiritual.

Espiritual: A melhor forma de compartilhar o interior.

Isso varia de lugar para lugar, de tempos para tempos.

Ao nascer nos desligamos, nos tornamos indivíduo. Somos ilha.

Há a pura necessidade de ligação. Alguém que divida o interior. Isso se chama AVENTURA.

Gozar, gozar, gozar, gozar e gozar.

Amor é geral, Amor: Amar alguém, amar alguém(s).

E é tudo muito bom.

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Aquele que só tem certezas não seria o tolo? Como se furtar ao mundo? Como se furtar ao mercado de consumo? É impossível. É herrado.

--

(Todo mundo se sente perdido, e precisa conversar).

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Caralho.
Às vezes este cantinho pode ser perigoso.
Entrego tudo nas mãos de quem sabe reconhecer o banal, o bananal,
De macias maçãs-do-rosto sobre o pomar da ponta de seu nariz.
She fell in love... He fell asleep...

They wait...

(Je ne savais pas. J'ai besoin de les comprendre.)
L'amour comme une fleur.
Giant est ma douleur.
Pas de sécurité.

Canto ao Medo

Me canso de ter medo,
Puro medo de ser mudo.

Eu sou pequeno.
Sou o medo do mundo.

Talvez eu não seja
Algo que você(eu) veja.

Eu quase não tenho sentidos,
Sofro, sofro, quieto, quieto.

Eu sou uma mentira.
Eu não sei o que mentir.

Sou uma decepção que devasta.
Um grande nada que se basta.

Sou o começo do fim, como as flores.
Mas eu desconheço a mim.

Eu tenho apenas essa forma
Ela é tudo que eu tenho.

Eu não me chamo mais João.
Não posso mais ser ele. Ele são.

Me proteja. Transforme minhas mãos.
Sou apenas uma mulher presa.

Minha força bruta é forte.
Lança-me no abismo. A mulher e a morte.

Eu sou medo e minha pureza me apavora
Não tenho pressa, não tenho. Perdi a hora.

Meu destino é permanecer.
Minha luz, só, esquece de ser.

Não há ninguém, ninguém que mereça
Tanta solidão. Nem uma nesga do mundo.

Sou o fraco, o que você queria?
A minha força vem por que sou calmo.

No quadro, uma tolice de apaixonado.
Um ser que ama sofrer, ser enganado.

Ao mesmo passo que se sente cansado,
Meu coração sabe que vai morrer.

E quando ele morrer, irei junto e feliz.
Diga que quase amei, foi por um triz!

Estou mais vivo do que nunca.
Disso as paredes já suspeitam.

Não leia mais sobre tudo,
Não leia tanto, meu coração se apagou.

Meu coração se apagou.
Meu coração se apagou.

Meu coração é uma vida separada.
Sem teu corpo, para sempre há de ser nada.

Esse coração é um banco de praça...
Pintado com as cores da desgraça.

Meu coração é tolo e antigo.
Para ser lido, precisa ser esquecido.

Ele sabe que há de se esquecer
Por ter sabido tanto sofrer.

Logo essas palavras nascem...
Logo essas palavras morrem...

Meu medo, meu peito, nasceram sem morrer.
Minha melhor amiga é a dor, sem saber.

Espalho por minha pele meu espírito.
Poderá sentir o aroma doce, dito?

Vou dormir. Vou dormir para sempre.
Não sei mais acordar para sempre.

Estou pronto. Tenho sono.
Estou pronto. Tenho fome.

Tenho o que tenho,
Cresço para dentro.

Não tenho caminho...
Perco-me só e com frio.

Ando descalço, bebo vinho.
Bebo seu passo, ando sozinho.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ser um corpo único.

Por que será que a ideia de sermos um corpo só nos amedronta?

Nesta linha de mistério que isola nosso corpo, e que sempre nos surpreende, encontrar na figura exterior reflexos da figura interior é existir?

Mas o corpo, o corpo, é menor que o pensamento.

Então por quê querer ter mais liberdade do que se tem?

Eu me canso pois não consigo parar de ser.

Minha condição é tão pequena, enquanto a condição sua é tão maior que a minha, por ser parte de um Universo externo, onde a condição é tão grande que nem se chama condição.

Será que é possível achar uma cura para a condição?

Ou melhor, é possível encontrar a cura para o medo da condição?

Afinal, de que vale ser assim tão sensato?

domingo, 8 de novembro de 2009

O que eu sei?

Eu continuo a te dizer sobre tudo
Dos absurdos e das coisas da vida
Já deixei cartas no seu criado mudo
E só me resta encontrar a saída

Por um breve segundo
Todo o medo do mundo
Se tornou um alegre jardim

E você me cantava assim
Assim, devagarinho um DÓ
Que me deixou melhor
Acho que foi sua mão
Que fez essa canção

Se a rua vai, voltarei
Sem você eu não partirei...
a vida inteira eu quis ser rei,
mas o que eu sei?


Com sete cores pintarei o meu muro
Um tanto certo é pensar na subida
Num passo tento te envolver nessa dança
E te dar flores, minha meiga querida.

Se o escuro do espaço
Vir aos olhos, num lapso
Estaremos num fragíl capim

Andaremos descalços, enfim.
Acho que é melhor
Não viajar tão só
Pegar estrada e não andar na contramão.

Se a rua vai, voltarei
Sem você não partirei
a vida inteira eu quis ser rei,
mas o que eu sei?

O que eu sei?

Eu continuo a te dizer sobre tudo
Dos absurdos e das coisas da vida
Já deixei cartas no seu criado mudo
E só me resta encontrar a saída

Por um breve segundo
Todo o medo do mundo
Se tornou um alegre jardim

E você me cantava assim
Assim, devagarinho um DÓ
Que me deixou melhor
Acho que foi sua mão
Que fez essa canção

Se a rua vai, voltarei
Sem você eu nunca partirei...
a vida inteira eu quis ser rei,
mas o que eu sei?


Com sete cores pintarei o meu muro
Um tanto certo é pensar na subida
Num passo tento te envolver nessa dança
E te dar flores, minha meiga querida.

Se o escuro do espaço
Vir aos olhos, num lapso
Estaremos num fragíl capim

Andaremos descalços, enfim
An han acho que é melhor
Não viajar tão só
Pegar estrada e não andar na contramao.

Se a rua vai, voltarei
Sem você nunca partirei
a vida inteira eu quis ser rei,
mas o que eu sei?








sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Simples

Tento encontrar uma página branca
Mas as lágrimas dos galhos da manhã
Borram a tinta de meu caderno
E apagam meu cigarro, lentamente.

Minha vontade é nula,
Eu apenas tenho que contemplar
As palavra indo embora
E deixando marcas de agonia
Em enormes manchas de meu corpo.

Nesta manhã, eu não sou mais palavras.
Apenas esta página branca...
Sem mais de mim,
Os versos também são brancos.

De que adianta especular
E fazer laços com pensamentos?
Neste chão de seixos em silêncio,
O que sacode o mundo
E perfura o crânio dos pássaros,
É a pura simplicidade do meu canto.

Quanto mais simples,
Maçãs simples, melhor.
Posso então sentir,
Pelo silêncio, as palavras.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Distraída

Quando a primeira gota escorreu
Ninguém dançava mais do que eu
Mas a chuva é só uma dança
Esquecida.

Do ouro, de volta, se enriqueceu,
E as folhas verdes ele percebeu
Escondendo-se da lua
Na sua vida.

Em breve a memória será Deus
E os amores que ela perdeu
Serão a chave de uma porta
Proibida.

Foi quando o mundo adormeceu
E a terra toda estremeceu
Com a mágica de Amanda,
Distraída.

sábado, 31 de outubro de 2009

Romeu Ébrio

Vá embora, pois sofro por ter te conhecido...
Você acabou de perder os meus, antes de tudo...
Tanto pior ou melhor, que vá procurar outros...

Eu sou assim... e você, mente cega,
Vá procurar alguma pedra para seu desamor.
Eu sou feito de carne e osso, sou moço.

E eu mal posso quebrar o gelo daqui.
Se por um segundo regurgitar fogo,
Não te engano. Por que não vens?

Estou mais só que minha própria solidão...

Chove na cidade.
Orgasmo, convulsão.
Você quer que eu brinque de Deus?
Não vai aceitar logo
Que eu sou apenas um coração?
O que mais um peito precisa
Que dois corações à vontade?
Reflexos puros e música.
Eu mesmo nem existo...
Saboreio, triste,
O hálito morno.
O delírio abafado,
E que também não existe...
Se a vida permanece aos seus olhos, por quê cegar a visão com silêncio? Precisa entregar-se mais. Algo te impede de falar. Falta tão pouco, e tudo. Ninguém acena para a dor de amar... todos sentem tanto medo. O meu próprio medo, a partir de agora, deposito aqui.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Viver a pergunta para viver a resposta?
Não sei mais...
Não quero saber.
Sinto-me cansado...
Profundamente cansado.
Dessa merda toda escrita...
Paredes de cores tão irreais.
Feitas de silêncio... e tempo.
Nada disso me diz mais nada.
Hoje é uma manhã azul, nua.
E eu permaneço frio, nú.
Talvez eu desça os andares vazios...
Toque gaita sob as árvores...
Ou consuma mais fumaça.
Amordaçar a ansiedade...
Talvez eu possa rir
De tudo que me dizem...
Concordar com qualquer tolice...
Talvez eu deva trabalhar com afinco,
Executar canções de amor à qualquer uma.
Não importa. Não sei mais...
Quero dormir no escuro.
Está me consumindo, as palavras...
A poeta.
para onde está me levando?
Nesse inteiro oceano de mim, vejo uma ilha...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

limpeza

Raios! Garras! Fui tomado pela discórdia!
Um bêbado que morreu por ali! Não!
Não é possível, não é claro o suficiente!
Tomara que a mão não fique dormente!
Torpor! Embriagado! Louco!
Tortura ensandecida em minhas vísceras!
Meu caro amigo, astronauta pálido, aracnídeo,
Pergunte mais uma vez ao desamor!
Perdão! Apego à tua morte! Se corte!
Cara pálida, no pó! Seja a verdade,
Você deseja que ela veja
O pior, antes do fim,
O menor, de princípio, enfim!
Arbustos da minha tripa negra! Decrépito, sigo calvo e nú.
Malditos! De Hollywood! Song of freedom! CÚ!
Vai pra merda, deputado! Trepa com a pata do eleitorado!
É um coelhinho que se manda! Ja dormiu mal assombrado?
Vai correndo para a escola, vai cagar no cagador!
Ruminantes! Sacripantas! Esterco das Malvinas!
Espaços floridos da Espanha, Espanha n'Alemanha!
Viva Gana! Gananciosos, profetas, camaradas!
Parceiros de ereção da cizânia!
Bostas de verme! Botas de pixe!
Demônios sem garoa!
Anfíbios abandonados!
Gemas de ovo estragadas, adiciona-se cinco olhos de peixe!
Morra amante da estrada!
Colírio pro meu sol que andava tão seixo!
Uma pedra, uma arma, uma pisada no quadril!
Garfos insaciáveis de encanto, um mármore rosa e frágil!
Um sapato apátrida e apático, paspalho!
Solto a vesícula principal, solte o pum, a após!
A proporção de Deus, no fogo do inferno escroto!
Vil e insensível! Tolo, fétido e filho da puta!
Desejo sua morte, desejo o seu mal, sua sorte avessa!
Role, carne imunda de sangue podre! Caia do penhasco!
Morra comigo num espinho de luz e ódio!
Folclóricos amigos, amargos, bandidos!
Morri, agora. Morra também comigo!
Asco anônimo, fraco antônimo, nenhum...
Nenhum sóbrio ânimo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Pé e a Cabeça

Que um piano forte possa ouvir-me todo
Quando jovem eu possuir milhares de anos.
É nessa música que vive a calma aquecida
Por um tanto de martelos e pregos errantes.
Por uma boca linda e perdida,
Pairando o sol no céu de trigo,
Tornando a bondade núpcias.
Sem coragem resta o peito nú.
Humilde verme crú, cor de turquesa...
Evacuando minh'alma cheia de honestidade,
Que corre inteira nesse campo só,
Desafia o eco amargo, átomo artístico,
Amplo de riso, alto de ouvido,
Agonia pobre de tão rica presença...
Podre. Uma rasteira no ser encantado.
Chore por mim, por vidas secas,
Nunca! Negra marca.
Arca jamais navegável,
Jangada que parte do mar!
"O-O-O-O-O MAR!
QUANDO QUEBRA NA PRAIA
É BONITO-O
É BONITO-O-O-O!"
Eu pensei numa frase absolutamente linda, mas no caminho para registrá-la aqui esqueci-a por completo... Era tão linda que meu corpo tragou toda a beleza e não deixou nada para a mente... simplesmente.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Onde você mora?

Eu preciso saber onde você mora,
Quero tua sala de estar e tua cama,
"Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar"...
Não quero as mediações eletrônicas de cobre e aço,
Pois isso me impede de ouvir música na tua voz...
Quero beijar-te até que a tua boca
Troque de lugar com a minha, sem pedir licença.
Quero chorar a chuva na sua frente, como um bebê faminto.
Cansei de ser infinito...
Apenas quero parar...
Estacionar.
Em cima de você, da sua acidez, das suas promessas.
Quero morrer na tua vida...
Quero vida para morrer...
Quero beijos...
E teu endereço grafado num poema bêbado, cheio de sexo e aromas.
Sentir teus seios em meu peito
Quando te apertar de saudade, uma saudade de homem.
E mesmo com meu hálito amargo de solidão,
Que eu possa te dizer nos olhos que amo teu umbigo,
Pois o meu está demasiado só, perdido no meio de mim.
Vem pra mim...
Traga o vinho...
Traga os versos...
Traga amigos, bons e delicados... não gosto dos rudes.
Fique em silêncio ao meu lado por 500 horas...
Diga a todo mundo que tua mão apertou meu pescoço,
E tuas pernas conferiram as minhas num abraço perfeito...
Pois te amo...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Poetinha Camarada

"Tristeza não tem fim,
Felicidade sim."


É, Vinicius de Moraes...
O senhor sabia bem disso...

Mas o que eu sei (e você também)?

"E se não tivesse o amor?
E se não tivesse essa dor,
E se não tivesse o sofrer,
E se não tivesse o chorar,

Melhor era tudo se acabar..."


Gracias, Señor. Renasça em mim mais uma vez...

"Coitado do homem que cai
No canto de ossanha, traidor.
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor

Vai, vai, vai, vai sofrer
Vai, vai, vai, vai chorar
Vai, vai, vai, vai viver
Vai, vai, vai, vai amar..."


É, meu Poeta...
Com a sorte e a força, em mil anos luz,
Quem teria coragem, meu senhor?
Quem terá?

"Vai, vai
Vai, vai...
Amar!
viver!"

Mais um poema se derramou cedo...

Derramou. A gota. O lago.
Antes da noite ser toda.
E a gente se deixa derramar junto,
Como um parto, como o mar.
Escorre pelo mundo como gelo partido.
E não se acalma com o gesto, é bonito.
Não fossem negros os cabelos
Talvez não houvesse tanta pressa.
Nesse jogo, a alma confessa
Pois não há mais tanto tempo assim.
Quando a carne é prata precisa brilhar.
Dê-me apenas a luz, em silêncio ou em canto.
Basta que minha mão sorria, de encanto.
Acorde quente numa cama macia. Só assim aprende.
Pede perdão...
As vezes tanta adoração, pequena,
Tem um meigo sabor de solidão...
Esse cheiro de mármore me envolve rosa.
Me pede o arrependimento que ainda não nasceu.
Desce meus orgãos com tempero de estrela.
L'infini roulé blanc de ta nuque à tes reins.
Não me espero assim tão cedo, te quero cedo.
Just take me... like a hand, like a heart...
To somewhere i have never travelled, gladly beyond.

Percebo, sonolento, despetalado,
Que meu querer é somente maior
Que o pedaço de você em mim.
Amo e vivo tanto, e pouco, e muito é o pranto.
O quanto de mim existe...
Nessa maçã de rosto lindo, e triste?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Dylanesca II

Sua vez de ouvir mais uma vez,
Os sonhos de meus versos tristonhos.
Andei no mundo perdido demais...
Com minha viola atrás...
Olhando a chuva inaugurando o amanhecer.
Prefiro esquecer.

Melhor ser vela na escuridão
Pra você ver
Meu olhar sangrando gemas...
E a escuridão não ser apenas,
Como um raio você vem
E na roupa veste o sol...
Que embeleza o meu lençol.

Sobrevoar os lábios da visão,
Soprando pérolas de vento ao meu refrão
E o eterno sempre amor
Continua em minha vida...
Sinto a flor mais esquecida...
Você devia me escutar melhor.
Mesmo sozinho eu não me sinto só
Não se renda ao medo teu,
Ainda resta a esperança...
Quando se dança essa dança,
Que se trança ao seu melhor...

The Book of Love

"The book of love is long and boring
No one can lift the damn thing
It's full of charts and facts and figures
And instructions for dancing

But i
I love it when you read to me
And you
You can read me anything

The book of love has music in it
In fact that's where music comes from
Some of it is just transcendental
Some of it is just really dumb

But i
I love it when you sing to me
And you
You can sing me anything

The book of love is long and boring
And written very long ago
It's full of flowers and heart-shaped boxes
And things we're all too young to know

But i
I love it when you give me things
And you
You ought to give me wedding rings
And i
I love it when you give me things
And you
You ought to give me wedding rings
You ought to give me wedding rings".

Peter Gabriel

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Anjo da Música

Fantástico! A tristeza é sensível!
Um gole d'água fresca!
Um sumo de fruta gorda!
Após derreter as flores do vale
Com minhas lágrimas noturnas,
Deparei-me com um conjunto
Entoando o canto erudito
De uma melodia belíssima!
Envolvente e com mui sentimento...
Ora, que momento seria melhor para ouvi-los?
As notas cantadas brilham
Como se todo esse amor não fosse só meu.
Curioso acaso para a minha poesia
Que andava tão solitária.
Mui amorosa, ela deparou-se
Com um breve momento sublime.
Onde a trágica condição harmônica
Enaltece a minha própria condição.
No fundo, tentei tornar-me um melhor entendedor.
Essas lágrimas são necessárias!
Não transmitem nenhuma solução, além de soluços,
Mas ajudam a pensar melhor.
E o amor por que sofre?
Ora, não seja assim tão pessimista.
De que outra forma a vida poderia chorar?
Deixa ela desabafar de vez em quando, homem de deus!
Ela vai precisar.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O que será que serei eu?

O que será que serei eu?
Um comedor de cal e caracóis?
Uma folha verde que sossega na fumaça?
O primeiro traço de um bebê,
Ou o último traço de um artista?
O que será que serei eu?
A voz real da pessoa amada?
Uma fuga pelo teu próprio caminho?
Um naco de nuvem nanica,
Ou o riso daquela morena?
O que será que serei eu?
O vigilante de um castelo em chamas?
Um murro que levamos na costela?
Uma breve jornada para casa,
Ou uma última volta ao mundo?
O que será que serei eu?
Um ser que ama em desespero?
Um ser que chora pelo infinito?
Uma pedra que rola no abismo?
Uma paixão que te torna aflito?
O que será que serei eu?

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Formosa

Quem me dera
Poder mergulhar
No mar dos olhos
Dessa menina

De pele clara e rosa,
Oceano que não termina,
Frágil como uma casa,
É seu narizinho, Marina.

Se eu pudesse guardar o mundo
Seria na tua voz que rima.
E quanto menos o tempo passa
Maior o desejo que desatina.

Logo eu fui te conhecer
E suas mãos tão pequeninas
Fez da minha voz meus versos,
Pois ser livre é minha sina.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Essa história de vida...

Essa história de vida...
Me impressiona à beça...
Tento sempre tanto...
... ser nada.
Ah, meus olhos de sangue
Supremos, em fogo, ligeiros.
Rachando seus glóbulos vermelhos
Num aborto totalmente eficaz.
Arando o solo da pele,
Cozendo chás e sóis.
Melhor era todo essa amor se acabar,
Ou talvez recomeçar seu voo.
Gosto da vida como ela de mim.
Gosto da maneira com que brotam,
Afloram e depois florescem, as palavras.
Nos incumbindo de libertá-las,
Sempre mais,
Uma por uma,
De todo o nosso julgamento de dentro.
Aliviando nosso sofrimento
Por exprimir num único tom...
A vida. Que ainda me impressiona.

sábado, 12 de setembro de 2009

Debussy

Porquê é isso, é a vida.
Como o tempo é a vida.
Vida. Palavra estranha, tão imensa...
Vida. Olha aí! Quanta amplidão...
Lá vem ela, sempre.
Também pudera. Sempre imaginei
Coisas assim, imensas e infinitas...
Sempre imaginei a vida, imagino.
E sempre eu quis esquece-la,
De todo o meu coração... mas,
Prepare-se! Aí vem ela, toda, completa,
Olha ela! Olha ela! Viu? Não viu?
Calma! Não se preocupe, dê uma risada.
Logo logo ela vem denovo, e quando vem...
É sempre simples. Sempre inteira.
Não há alternativa, vê? A vida é pra valer, durona.
E eu me pergunto numa situação dessas:
Sabemos que um dia experimentaremos
A não-vida, por eternas partículas de...
De...
De...(bussy)
De...(bussy)
Dê!
Dê!
Dê(bussy)!
Dê para mim essa palavra eu preciso dela!
Vamos lá, vamos lá, vamos!
A palavra João...
A palavra...
"Clair de Lune"
O quê?
"Clair-de-Lune"...
Sim!
Sim?
"Clair de Lune"! É ela!
Encontrei a palavra!
Experimentaremos, inevitavelmente,
A não-vida, por
Eternas
Partículas de
"Clair de Lune"

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Menina

Moça cor do planalto
Pele azul ouro índia,
Negra e linda,
Rosto de brisa,
Cabelo de prata mais alto
Bravura de Deusa, mito,
Sombra de flores, em bons ares,
É morada da mata, ato frágil.
Meu frágil, macio abril, mulata,
Despetalado nessa moça,
Mel de árvore nasceu.
Essa canção tímida
Quero que você ouça,
Porque já amanheceu.

sábado, 22 de agosto de 2009

Fora de Época

Rain drops saturday
Chovendo, chovendo, chovendo!
Chove essa água de agosto,
Chove essas pedras.
O ar estava mesmo seco.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Golpe

Esta tamanha dor me atordoa!
Quero guardá-la num tonel de pinga...
Arrueiros, ossos da caatinga,
Entoo música, alma só, pessoa!

De que lhe vale, Nero, o ouro bandido?
E o tépido trote d'mada?
Seria doce luz a madrugada
Chamar seus olhos por seu apelido?

E uma lágrima me aprofunda
Num soberano mar de sentimento.
Voando baixo sobre o firmamento
Ao céu de fogo ao som do samba e rumba.

Comi virtudes. Vou colhendo estradas.
Escoregando em minhas falcatruas!
Servi ao bel prazer da propria amada,
Amando o terço das mulheres nuas!

Poria o sol na pista de um soldado
Que lutaria contra a própria pança?
Seria o encanto do desencantado,
Ou sua alma que em mim balança?

Formei os frutos do esquecimento
E camuflei o sumo do passado.
Entre o presente, um muro de cimento,
Confiro o amor e morte resguardado!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Ainda

Para você, que eu não conheço
Mas que amo e, alías, que sempre amarei.
Eu prometo que serei o que tiver de ser.
Juro, você saberá dos pedaços de minha vida
E me será de frágil textura quando dormir.
Quando tu chegar e eu estiver sozinho
Vai ver aquela flor de todas as cores, sozinha.
Quando pousar em mim, como o sol num vasto oceano,
Serei o que te entrega a vida, linda e nua!
Como a noite, serei o escuro de tua sonolência,
O sopro de ar morno que aquece teu rosto.
Quando tu caminhar no deserto do sonho que desatina,
Serei a chuva de pequeninos olhos e pingos de prata.
Apenas serei minha alegria, amarei teu amor.
Como uma raiz, contemplarei o sentido único
Da tua presença. Molhas meu rosto de lágrimas
Quando sorri, quando torna-se minha casa quente.
Você me faz parecer menos só... sozinho sempre.
O instrumento de música que faço será para você,
E para tudo que encontrares no caminho.
Quando você me olhar daquele jeito,
Sentirei o amarelo forte, também o vinho.
Quando me tocar e sorrir, intenso rosa.
Mãos pequeninas, alma infinita como a minha,
Que eu amo e sempre amarei,
Sabendo pouco, quase nada,
Quem é você, ainda.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Repente Repentino

Vamos pegar o trem!
Vamo pega o treim!
Vamos pegar o trem!
Vamo pegá o treim!
Ramo pegá o treim!
Ramos pegá outrem!
Ramo pegá o traim!
Ramos pegá outrem!
Vã mospegar o trem!
Van mospegar otreim!
Vã mospegar o trem!
Van mospegar otreim!
Ramo regar o rei!
Rã morrigual o rim!
Ramo regar o rei!
Rã morrigual o rim!
Vamos cegar o reino
Vá morcegar o gim!
Vamos cegar o reino
Vá morcegar o gim!
Vamo chegar mais cedo, ômonêna!
Ramo xegá mar tarde!
Vamo chegar mais cedo, ôneguinha!
Ramo xegá mar tarde!
Pindoca para o Remo!
Pinduca pindurado!
Pindoca para o Remo!
Pinduca pindurado!
Ramo corre ligero!
Ramo fugi no ato!
Ramo corre ligero!
Ramo fugi no ato!
Risoca pra rizeiro!
A arroz de tipo condenado!
Risoca pra rizeiro, ômainha!
Arroz de tipo estragado!
Remo reboca a rua, ruela!
Ramo indo para o sul!
Re-reboca-car a rua, ôpretinha!
Inuinu para o sul!
Inuinu parunór!
Inuinu parosú!
Inuinu parulés, ômagréla!
Inuinu pararacaju!
Volta volta que eu te mando!
Volta fica por favor!
Se não volta a volta não diz nadômianêga!
Volto para minha dor!
VAMOS PEGAR O TREM, CAMARÁ-Ê!
VAMOS PEGAR O TREM, CAMARÁ!
VAMOS PEGAR O TREM, CAMARÃO!
VAMO PEGÁ O TREIM, CAMARÁ-dá!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Abismo

O homem que sorri a todos indistintamente,
O faz por esconder verdadeira tristeza
Nas profundezas da alma,
Sem ter calma,
Sofre como se tua outra mão
Fosse igual a outra mão de seu pior inimigo.

Sobrevoar nas órbitas do espírito
Com júbilo,
Coragem,
Quem sabe apenas rezar sem saber,
Quem sabe?
Serei eu o nome que todos pronunciam?
Pouco.
Muito Pouco.
Longe de mim,
sim, impossível!

Como gelatina velha, como sabor de casca de árvore,
Serei somente eu meu cúmplice?
Bobagem, quer mais?

Eu tenho que confessar:
Amo alguém que frequenta meus olhos,
Como o mar. E assim como o Sol,
Toca no horizonte sem encostar,
Porque hão de se amar eternamente,
Sem nunca poderem se abraçar,
Pois, ao seu encontro, do mar
A água há de tornar-se nuvem,
E o fogo do Sol se extiguirá.

Mas a minha tristeza,
Minha fragilidade secreta,
São suficientes para mim.

Isto é um exorcismo.
Não suporto mais escrever sobre mim
Envergonhado do mundo.

A raiva tem pressa, se apossa,
Camufla-se nas entranhas.
Torna-se orgânica.
Quando passa só deixa passos
Da incoerência.

Livre-se disso!
Meta a cara nos versos!
A cara da tristeza nos compassos!
No vaso sanitário,
Dê descarga como se fosse
A merda mais repugnante que suas pregas
Jamais regurgitaram!

Foda-se! Burgueses de merda. Serei merda como vocês?
Abandono, será possível alguém também sentir isso?
Tantas comoções...
Por uma simples lembrança...

Para o diabo com você. Eu te odeio.
Eu sou um escroto. Um canalha.
Sou vil como o véu da morte
Do veneno da cascavél de um vício,
Calçificada em tua calçada diária.
Destas palavras desista agora!

Vire esta página. Desligue tudo, sei lá.
Vire o rosto para o lado, não leia mais.
Se não o fizer vomitarei meu brilho
Em tua direção, cego e poderoso, fétido.

Decidi que isso não é mais problema
Para uma criação estupenda como eu.
Um homem chora por ser demasiado feliz.
Muita felicidade leva ao abismo,
O choro alivía.
Recolhe os frutos caídos no chão do pomar
Depois da ventania.

Nunca saia de casa sem pensar em mim.
Como legado, porque desejaria ser lembrado?

Jovem moça, velha moça. Capture aquela noite.
Capture as estrelas, olhos, ameixas, soleiras,
Morangos, morcegos, línguas... Esqueçam!
Agora, talvez, nunca mais sejam os mesmos.

Passe bem o dia, noite ou tarde.
Mas por favor, alma, não se faça de covarde.
Mergulhe, salte, arrisque toda sua quantia!
Odeie minha carne, Queime-a no fogo infâme!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Eu sou uma fratura, cega e sem pudor.
Sou uma pessoa impura, sem moral nenhuma como guia.
Tenho a mesma sensibilidade que uma rã, ou um camaleão,
Porém sou mestiço devido aos meus traços vis e obscuros.
Eu procuro declamar a todos que pouco me lixo às suas expectativas,
Pois odeio meu reflexo tal que não produzo alegria, nem planos, nem felicidade.
Vivo num quarto vazio sobre os pés de todos os outros. Os outros.
Vizinhos perfeitos, amigos fiéis e amantes puros.
Sou um asco na boca das pessoas próximas.
Quero cagar na mente de todos que satirizam e se horrorizam com minhas atitudes bizarras, impulsivas sempre que posso, ou devo.
Derreto meus pés no peito de quem me trair.
Suplico por um momento de pureza total e o que recebo em troca, na maioria das vezes, é distância, distante, tão distante, totalmente longe de alcançar.
Não sou como todas as pessoas que guardam seus órgãos genitais dentro da enclausura de seu caráter previsível e familiar.
Meu caráter é um veneno.
Que mantêm sentimentos tão modernos que minha mente de bicho pelado não suporta compreender.
Quero ir embora daqui, pois parece que minha busca é falha.
Vou para outro lugar, outro país, outro planeta, outra galáxia, outro universo, outro, outro... outro
Sentido, crença de outra vida, eu não desejaria, nem que me matem, sobreviver ao lado de vocês imundos, irmãos de sangue e palavras, sujos como pombos encerados de avenidas transcendentais.
Fora de mim, não desejo sua pureza, nem aceitação, nem pronúncia.
Eu acato apenas a sua renúncia. Renuncie daí, que eu renuncio daqui.
Como uma troca formaremos uma nova aliança com os braços.
Eu apenas ignorarei sua carne enquanto não queiras queimá-la junto à minha. Esquecerei sua imperfeição de maneira que você não precisa mais brincar de se esconder.
O caminho é melhor quando aos poucos.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Ela

"Olhos doces
De quem quer bem.
Palavras sutis
Que adentram suavemente
A alma.

Abraço apertado e caloroso.
Sorrisos descompromissados,
Sem aviso prévio.
Encontros
Esporádicos
Enfeitiçados.

Magia...
Mágica de tornar-se uno.
E então a simplicidade
Que se transforma
Em grandeza".

R.F

sábado, 18 de julho de 2009

Mosquinha

Quem rende-se a tudo
É porque ama muito.
Ama em demasia.
É o vício de cor vazia.

Tramas de cor verde
Que sente por dentro
Contrações, fome, sede,
Frágeis folhas de coentro.

Teus poucos versos,
Tua sóbria rima,
Tão louca quanto a minha
Tão pouca e mesquinha.

Pouca e mosquinha.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

rio que Rilke riu

Eu não me aguento, não me quero.
Não posso me levar.
Toda esta fumaça, este inferno,
Esta beleza perdida e despedaçada,
Esse caos em meu sangue.
Fuligens cotidianas.
Sempre dentro, sempre fora.
Palco de sucesso e derrota: meu peito.
Serão estas cenas palavras de poesia?
Poesia. Túnel de rosa, luz de vento,
Irmã mais pura da esquizofrenia.
Ninguém mais está a salvo.
Morram todos em tempo lento,
Ou tornem-se flechas, ao invés de alvos.
Praga, prole, punho, puta, PARA!
Salva-vidas não flores de forma alguma!
Não flores salvar nada além de si!
Alma penada, sofredor divino!
Interrompa esta chaga,
pátria, prata, hino!
Vai te embora filho do desejo.
Vá e não volte tão cedo.
Abre-te como um pássaro ingênuo.
Não cante além de mim!
Vontade de socar o mundo
Com toneladas de filosofia imunda.
A limpeza é triste,
E o homem que muito sorri
É que guarda muita tristeza em si,
Como um rio enorme que vive,
E morre aos poucos enquanto resiste.
RESISTE!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Outonão

Foi no entardecer de um verão moribundo,
Aparentemente muito normal, que floreceu
E logo, de súbito, feneceu, o fruto embrionário
Do calor dos sóis universal.
Desse embrião chamado Outono,
A vida veio receosa e letal.

E o frio dos tetos baixos, no inverno,
Inda é uma chama que se extingui cálida
E lentamente. Vivendo completamente
Seu fogo interno.

Lembrei-me da pedra lisa na fogueira
Vaporizando um café camponês:
Estimulantemente amigo.
Nestes dias de cores esvaídas,
Três tentativas de saída à beira,
E o fruto da escuridão regurgitou-se,
Fraco e tenso, cego em minhas tripas macias.

Sob a cama olhei um retrato de gente já morta,
No qual, segundo os sóis da noite,
Estava uma carta secreta para mim.
A receita da seiva quer ser criada!
E consumida em forma de sumo doce!
Nenhuma nuvem, nem ave ou castor
Puderam consolar-me naquele instante.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A Dor do Amor

A dor do amor
É a rima da tristeza.
É gota de suor
De um corpo (copo) sem certeza.

É um golpe de mestre
Que estraçalha pensamento.
Que sossega quando esqueçe...
Quando cansa do momento.

É a flor que brota escura
E não divide sua beleza.
Não canta, não ri e não dura...
Chora enquanto acesa.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Camarada

Ó menina bonita
Deixe a tristeza passar
Porque está tão decidida
A não me acompanhar?

Ah não, pense na vida!
Assim não pode ser.
Não vê? Não percebe?
Sem você é difícil viver.

Uma coisa eu te digo,
Me dá vontade de viajar!
Sair pelo mundo antigo,
Quem sabe até velejar!

Porque o tempo é nada
Logo passa, logo acaba.
Mas você continua a melhor companhia,
Menina bonita, camarada.

terça-feira, 23 de junho de 2009

"Já que eu não posso te levar, quero que você me leve."
Lõbão

Sérgio

Esse amigo meu que te conto
É artista, joga baralho e toca tuba.
Não se preocupe se perder o bonde,
Esse ai é um garoto da mata, da noite, de cuba.
Esse cara é a cara de todo mundo.
Minha cara, tua cara, cara de tudo,
Até cara de pau se preciso
Pois nesse mundo o preciso não é tudo
Só o respeito acima do recado:
Esse cara é uma benção,
Vinda lá do outro lado.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Poema de Vinho

Rubores desta página manchada
São canções do descontexto.
São como ruas de flor cálida,
Como eu, amando sem nenhum pretexto.

Penso, aliás, se estas uvas engarrafadas
Ousarão expurgar minha dor aos ventos?
Sob a prata intercalada,
Terão lido meus lamentos?

Alvo de fúria desregrada,
Sobre a fátua pérola de minha nuca,
Outra pedra tornou-se bruta
No canto da noite, em mim sulcada.

A minha falta de ira goza, em maio,
Subitamente, sua falta de pejo.
Das frias pradas do oriente entalho
Estas palavras trazidas no ensejo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Lágrima de Sal

Dias de maio.
Fúria.
Hálito após o ensaio.
Rubi no céu da boca.
Tua lua rebelde e louca,
Sã e pouca,
Fosso que caio
Quando o prazer cobre
A dor espúria,
À carne transpira nua,
Rouca.
Derrama cabelos frágeis,
De tua nuca
Chorando em mim,
Sulcam com poucas
Pétalas de ópio
A seda dos seios carmim,
Dourada de noite.
Ao final,
Soprou, cedeu e adormeceu
Enfim,
Lagrimada de sal.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Verso

Ande por caminhar,
Estacione na vaga.
Desistir se o caminho
É desistente?
Este verso não diz
Absolutamente nada,
Esse verso sente.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Centro

Há o ato do tempo
Nos pingos de tinta
Dos sinos que abrigam o silêncio.

Quebrando às águas do vento
Ao final da vida sucinta
O que mente a espuma de dentro.

E nem que o fruto se ressinta
Será suspensa a razão do centro
Quando de uma mãe a outra desminta.

Serei para sempre atento
Ao sol do dia que brilha
Enquanto sugar-me ar adentro.

domingo, 29 de março de 2009

Corpo Morno

Nos matam
Unicamente
Por se amarem
O senhor tempo
E a total perdição
Em meu, seu
Corpo morno.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Canção Distraída

Como a noite você dança
Ao redor de mim balança
Com suas tranças esquecidas
E sua bolsa de marfim

Sobre o palco que é o chão
A eterna serenata diz não
Há uma ponte sobre as lágrimas
Que chovem sem fim

E ultrapassa os automoveis
E essa estrada segue as nuvens
Do seu arco de estrelas
Do seu quarto cor de carmim

E o seu morno travesseiro
De sua nuca tem o cheiro
Atravessa-me inteiro
Como um galho de jasmim

domingo, 15 de março de 2009

Colheita

Eis em meu ver a era de vênus
E o inseto sabor de veneno.
Eis os capricórnios sinos.
Pontes sensuais de três lados.
Cabelos cristalinos.
Barco de espelhos naufragado.
Arco de universo em expansão.
Meu universo em contração.
Eis os versos da canção
Sobrevoando as ébrias
Éguas de azeite e cereja.
Surge o mamilo da flor de leite,
Surge enquanto fulge, enquanto dure,
Enquando deite!

terça-feira, 3 de março de 2009

Beija

Lábios
de mulher
Ameixa
flor de mel
Morna

saliva de rosa.

Prazer de café
aroma
Mulher de pérola
seda
Desliza frágil

a onda.

Um pensamento...

Meu espírito ardente
Defronta-se com o espelho
De minh'alma
Que belamente, de repente
Reflete os dois lados
Da lente de meus olhos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Aos Beat Batentes

Eis os cíclicos homnídeos. Peças de argila bascas,
Ébrias da nevasca Dantesca, toscas.
E o verde das folhas e o aço das cascas,
Flutuam nas nuvens Beatnick de Boston.

Já que quero o alcool, de cara,
Kerouac quer o ópio do bico da arara
Onde toca o Carnaval de girinos e tâmaras
Quebrando o tempo e o véu das mascaras.

Ouça o chamado dos babuínos d'aurora
Em chamas de limbo e de erva sonora
O lírio da montanha rompe, sobrevoa, demora, e... e...
E morre na noite onde a lua mora.

O vinho é a hora, e a cor do sangue sangra.
Chá de Ginseng para Ginsberg, e mantra.
O manto de madeira rola sobre Burroughs
E o não-materialismo das poltronas de Clélio.

Espanto a todos os malditos não nascidos,
Que virão depois de mim, perpetuar a maldição.
Que saibam, são eles todos merecidos
Do licor dos versos que provoca solidão.